Quem matou meu Pai?

Sim, eu sei que o título desse post é forte… Também sei que nada vai trazer o meu pai de volta, mas eu preciso desabafar. O intuito desse post não é o de acusar ninguém, mas sim relatar a experiência de morte do meu pai desde quando ele deu entrada no Hospital Heliópolis para tratar de um câncer que a princípio seria simples.

Querido blog,

Estou há um bom tempo tentando atualizar este blog, pois apesar das informações desse post serem ruins, aconteceram muitas coisas boas desde o início do ano. Sei que devemos guardar as boas lembranças e momentos de alegria, mas se eu não registrar aqui tudo o que aconteceu desde que meu pai iniciou o tratamento contra o câncer no Hospital Heliópolis, eu não ficarei em paz!

Há muitos anos, meu pai sofria com problemas intestinais e dificuldades para evacuar. Até então, ele sempre achou que fosse uma “simples” hemorroida. Teimoso como a maioria dos homens, ele sempre fugia das consultas médicas, mas em Janeiro desse ano (2019), a situação ficou crítica quando ele começou a perceber sangue nas fezes.

Como meu pai não tinha convênio médico, marcamos uma consulta no Dr. Consulta, pois é o meio mais acessível financeiramente, antes de encarar o tão precário SUS.

14 de fevereiro de 2019 – Primeira consulta

À princípio marcamos uma consulta com a Dra. Liliane, clínica geral na unidade do Dr.Consulta do centro de Guarulhos. Ela solicitou alguns exames de rotina e fez o encaminhamento para meu pai passar também com o urologista.

No dia 19 de fevereiro de 2019, meu pai passou com o Dr. Fabio Guedes, urologista na unidade do Shopping Internacional de Guarulhos. O intuito dessa consulta era avaliar se havia algum problema com a próstata, uma vez que meu pai nunca havia realizado o exame. Não foi necessário realizar o exame de toque nesse dia, pois o médico solicitou um exame de sangue e ultrassonografia de próstata via abdominal.

No dia 12 de março de 2019, houve o retorno com o urologista, o qual avaliou os exames e identificou que havia uma alteração na próstata, ou seja, ela estava aumentada. No entanto, o problema maior não era esse.

No dia 25 de março de 2019, no retorno com a Dra. Liliane, ela avaliou os exames que havia pedido, dentre eles uma biópsia, e constatou que meu pai estava com um Adenocarcinoma de Reto… CÂNCER NO INTESTINO!

Quem estava com ele no momento da notícia, foi minha mãe e ela disse que a Dra. Liliane falou como se fosse a coisa mais natural do mundo. Segundo minha mãe, a doutora ainda se despediu de meu pai dizendo:

“Quero ver o senhor aqui no ano que vem, viu?!”

Mal sabia ela que isso seria impossível de acontecer… 😦

Lembro que quando minha mãe voltou da consulta e me deu a notícia, eu não conseguia chorar. Sempre achei que se eu recebesse um diagnóstico desse na família, me acabaria em prantos, mas não foi o que aconteceu… Fiquei sem reação, como se não fosse verdade, mas na verdade não tinha caído a ficha!

Nesse dia, meu pai foi para a oficina, pois era o lugar em que ele mais gostava de ficar. Quando voltou pra casa, seus olhos estavam muito inchados, como eu nunca tinha visto antes… Devia ter chorado horrores!

Nunca vi meu pai chorar. Ele sempre segurava o choro… talvez isso tenha contribuído para a evolução do problema físico dele. Papito sempre foi forte, durão e bravo, mas por dentro ele era uma pessoa frágil, sensível e doce… muuuuito doce!!!

Quando vi seus olhinhos inchados de tanto chorar, tive vontade de abraçá-lo forte e colocá-lo dentro de mim, ou de pegá-lo no colo e carregá-lo, como ele sempre fazia comigo e com minha irmã quando éramos crianças…

Na verdade, depois que o único amigo dele faleceu, há 10 anos atrás, meu pai foi perdendo as forças e sua “carapaça” protetora foi virando dor física, tristeza, sofrimento e solidão… Anderson, melhor amigo do meu pai, era como se fosse um irmão para ele e eu o considerava mais que um tio, pois ele era um poço gigante de bondade e boa vontade! Não tinha tempo ruim para ele… e se tivesse, ele escondia muito bem. Tão bem que acabou morrendo por acumular tudo para si, sem deixar que os problemas machucassem as pessoas que mais amava…

Depois que o Anderson morreu, meu pai continuou trabalhando sozinho… Não havia ninguém que o substituísse, a não ser o vazio enorme, proporcional ao tamanho do seu coração.

Além da morte do Anderson, outro fato ainda mais recente acabou aos poucos com a vontade de viver do meu pai: a morte do Tio Salvador. Falei sobre isso em um depoimento, mas falarei um pouco mais no final desse post.

Voltando à saga de morte do meu pai…

Apesar da Dra. Liliane (clínica geral) ter dado a notícia, foi necessário agendar com um especialista para confirmar o diagnóstico e verificar as possibilidades de tratamento. Nesse mesmo dia, foi agendada uma consulta com o Dr. Renato Migliore, coloproctologista do Dr. Consulta.

A consulta estava marcada para o dia 2 de abril de 2019 às 11h15 e neste dia quem o acompanhou fui eu. Estávamos muito confusos e incrédulos de que meu pai estava realmente com essa doença e sobre como seria o tratamento.

Dr. Renato atendeu meu pai, olhou todos os exames e disse que realmente era câncer, mas que de todos os cânceres, este era um dos mais simples de se tratar. Essa informação nos deu um certo alívio na época, mas não era o suficiente para nos deixar totalmente confiantes.

Dr. Renato perguntou se meu pai tinha convênio, falamos que não. Ele disse que infelizmente o Dr. Consulta não dispunha de estrutura para tratar esse tipo de doença, pois não possui hospitais, apenas clínicas. Ele disse ainda que um tratamento desse no particular não sairia por menos de R$ 100 mil… Por isso, ele fez uma carta de encaminhamento para levarmos à UBS do SUS para encaminharem ao tratamento.

Dr. Renato solicitou ainda mais alguns exames específicos (CEA – ANTIGENO CARCINOEMBRIOGENICO PROTEINAS TOTAIS E FRACOES) e disse que meu pai poderia retornar com ele para levar os exames. O último retorno com o Dr. Renato aconteceu no dia 16 de abril de 2019. Depois desse dia tudo ocorreu pelo SUS.

Início da saga pelo SUS

Depois de receber a confirmação do diagnóstico de câncer pelo Dr. Consulta, meu pai foi encaminhado para a Unidade Básica de Saúde (UBS Cavadas) para dar entrada no tratamento… Ou seria tortura? Sim, o termo parece forte e exagerado, mas só quem passa pela espera angustiante do SUS sabe o que é esse sofrimento.

Com todos os exames realizado no Dr. Consulta em mãos + a carta de encaminhamento do Dr. Renato, meu pai e eu fomos até a UBS Cavadas, perto de casa. Meu pai nunca tinha ido ao médico pelo SUS e sempre fugia quando minha mãe dizia que ia fazer a carteirinha dele. As duas únicas cirurgias que ele teve que fazer na vida, foram no Hospital Stella Maris (apêndice e hérnia) e foram pagas.

Hoje entendo o medo do meu pai de passar pelo SUS… Na verdade, eu já tinha conhecimento do atendimento do SUS, pois iniciei meu tratamento da Tireoide por lá. Depois de uns dois anos tratando pelo SUS, resolvi procurar ajuda de outro tipo de profissional, pois além da demora entre uma consulta e outra, a desinformação de algumas pessoas e a má vontade de outras, também fizeram com que eu quisesse fugir de lá!

Depois de uma longa espera na UBS Cavadas, meu pai finalmente conseguiu ser atendido. A atendente Juliana (muito simpática e prestativa por sinal = exceção), fez o cadastro dele, pois ele ainda não tinha o cartão do SUS. Ela olhou todos os exames, falei para ela da urgência e mostrei a cartinha do Dr. Renato. Juliana disse que naquele dia a médica não estava mais lá, mas que iria encaminhá-lo para falar com a chefe da enfermaria para ver se ela conseguia um encaixe para ele.

Falamos com a tal chefe e ela conseguiu agendá-lo para a semana seguinte. Nesse dia, não pude acompanhá-lo, mas ele passou com a médica e ela encaminhou o processo. Os exames foram escaneados na própria UBS e enviados para o Estado, pois questões relacionadas a Oncologia não são tratadas diretamente pelo município de Guarulhos (até agora não entendi o porquê).

O procedimento de escanear a documentação e enviar para o Estado também foi realizado pela Juliana. Tanto que ela entrou em contato comigo no dia 9 de abril de 2019 para solicitar os exames novamente, pois reclamaram que a cópia não estava legível. Escaneei para ela de casa mesmo e enviei para o e-mail da UBS.

Até aqui estava indo bem…

Depois que demos entrada na UBS, ficamos aguardando o retorno deles para saber onde e quando seria iniciado o tratamento. Nessa época eu estava tratando dos dentes com o Dr. Tiago (ortodontista do Dr. Consulta Paraíso) e, coincidentemente, o pai dele também estava tratando de câncer no reto e descobriu na mesma época que meu pai.

Como eles tinham convênio, conseguiram realizar a cirurgia rapidamente e continuar com a quimioterapia sem mais complicações. Dr. Tiago também falava que esse câncer era simples e que daria tudo certo com o tratamento, mas infelizmente ele estava tão enganado quanto nós, pois o destino do meu pai foi bem diferente…

Depois do dia em que escaneei os documentos para a Juliana, retornamos com o Dr. Renato no dia 16 de abril e falamos para ele sobre a demora do SUS. Ele orientou que ligássemos pelo menos uma vez por semana para verificar como estavam as vagas. Hoje eu já nem me importaria mais com essa demora, pois teria meu pai por mais tempo pertinho de mim… 😦

Passadas algumas semanas, ligaram da UBS Cavadas informando que o tratamento seria realizado no Hospital Heliópolis e que a primeira consulta estava marcada para o dia 13 de maio de 2019 a partir das 14 h.

Ficamos preocupados com o fato de ser nesse hospital, pois além de ser bem longe de casa, havia um passado tenebroso com relação a esse lugar: Anderson, o melhor amigo do meu pai, faleceu no Hospital Heliópolis há 10 anos atrás. Pode parecer apenas uma coincidência, mas para nós essa informação teve um peso muito grande.

Pois bem, no dia 13 de maio às 14 h estávamos lá, Papito e eu. Logo no portão do hospital, ficamos em dúvida se poderia entrar com o carro lá dentro ou não, mas quando falei para o guarda a palavra ONCOLOGIA, logo ele liberou que entrássemos de carro. Lembro que ainda brinquei com meu pai: “A palavra mágica é oncologia!” Brincadeira mais infame… :/

Depois de estacionarmos o carro, procuramos o local onde seria a consulta. Erramos um pouco o caminho, até chegarmos à recepção do atendimento. Fomos encaminhados para uma espécie de triagem, onde a atendente faz várias perguntas para fazer o “cartão” do hospital (uma folha de papel) e a maioria das informações são preenchidas a mão.

Após o cadastro, a atendente falou para retirarmos uma senha e aguardar a chamada para a consulta. Tinha gente de tudo quanto é lugar, com vários tipos de cânceres e que tinham chegado muito mais cedo para passar nessa consulta.

Papito estava triste e preocupado… Demorou mais de duas horas para ele ser chamado e quando entramos na sala, ele foi atendido inicialmente pelo Dr. Everton Gustavo, que acredito ser o médico residente. Fiquei com muita dó desse médico, pois ele teve que preencher todos os formulários A MÃO. Depois de tanto escrever, ele pediu para o meu pai subir na maca e aguardar o médico responsável para examiná-lo.

Depois de uns 20 minutos, chegou o Dr. Bernardo Pompeu (Cancerologista Cirurgião). Ele me cumprimentou, cumprimentou meu pai e começou a fazer as perguntas para o Dr. Everton. Terminadas as perguntas, ele e o médico residente fizeram exame de toque no meu pai. Detalhe: nesse momento fiquei um pouco constrangida pois não pediram para eu me retirar da sala e meu pai também ficou bravo, pois não precisou fazer esse exame no Dr. Consulta, mas nesse dia foi feito duas vezes, ou seja, por duas pessoas.

Enfim, após examinar meu pai, Dr. Bernardo disse que tinha conseguido sentir a lesão, informou a medida e o estadiamento do tumor para o Dr. Everton e em seguida, explicou para nós o que seria feito e qual a situação. Ele disse que antes de fazer a cirurgia para a retirada do tumor, era necessário fazer as sessões de quimioterapia e radioterapia. Ficamos assustados com a quantidade de quimioterapia (5 dias seguidos), mas não questionamos na hora.

Cabe lembrar que eles questionaram o fato de termos realizado os exames iniciais no Dr. Consulta, por isso nos foi solicitada a lâmina da biópsia e mais alguns exames que deveriam ser realizados no próprio Hospital Heliópolis. Um deles, a Ressonância Pélvica, até hoje não abriu vaga para fazer, mas enfim… não vem ao caso,pois meu pai já não está mais aqui para fazer mesmo…

Papito e eu saímos da sala dos médicos perto das 18h, quase fechando aquela sessão do hospital. Passamos na recepção para agendarmos os exames que o Dr. Bernardo havia pedido e o início do tratamento, mas devido ao horário, o exame só poderia ser realizado no dia seguinte e o tratamento só poderia começar com a tal da lâmina da biópsia…

No dia seguinte, Papito e eu fomos até o Dr. Consulta Tatuapé, onde foi realizada a biópsia do tumor (fato que não detalhei anteriormente). Lá, disseram que estaria disponível em até 10 dias úteis, mas que ligariam para avisar se chegasse antes. Nesse meio tempo, tentamos marcar a Ressonância Pélvica, mas não havia aberto a agenda (e nem abriu nos meses seguintes). Quando a lâmina chegou no Dr. Consulta, pouco antes do prazo, ligaram para o meu pai e ele foi retirar a “caixinha”, sozinho.

No dia 30 de maio de 2019, fomos até o Hospital Heliópolis para marcar o início do tratamento e o exame que o Dr. Bernardo pediu já com a lâmina solicitada por ele. A desinformação de algumas atendentes, nos deixou muito preocupados: elas não quiseram ficar com a caixinha da lâmina, pois disseram que era para entregar para o Dr. Bernardo, pegaram algumas guias do meu pai e anotaram as informações para entrarem em contato conosco. Disseram que não sabiam se o tratamento seria feito lá ou não…

Esse fato gerou um post meu no Instagram, que serviu para alertar as pessoas que não sabiam o que estava acontecendo com o meu pai e também para recebermos o apoio e as orientações de pessoas que ficaram realmente preocupadas conosco.

Instagram Papito 30-05-19
Oi gente! Tudo bem?
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Estão vendo essa carinha fofa e sorridente na foto?
Ele é meu pai e o nome dele é Luiz… Mais conhecido como Luizinho ou Tio Luiz! 😁
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Há uns 3 meses ele foi diagnosticado com #cancernointestino , fez todos os exames pelo #drconsulta , mas como lá não tem hospital e nós não temos convênio, ele acabou sendo encaminhado para o #SUS… 😬
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A nossa jornada com o #sus começou na #UBSCavadas, em Guarulhos, mas como existe uma fila de espera, tivemos que aguardar. 😔
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Graças aos exames que ele havia feito no #DrConsulta e ao encaminhamento do médico, conseguimos adiantar o processo, pois se ele começasse tudo no posto, sabe-se lá em que pé estaria agora… 😕
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Quase dois meses depois, surgiu uma vaga para ele no #hospitalheliopolis . Levamos todos os exames, o médico examinou, disse que ele precisa fazer uma #ressonanciapelvica , mas já confirmou que ele terá que fazer #cirurgia , #quimioterapia e #radioterapia 😢
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Até aí tudo bem, pois já sabíamos que isso iria acontecer. O problema começou quando saímos da consulta. Ele precisa começar a fazer quimio e radio antes da cirurgia, mas não pôde marcar porque precisava da lâmina da biópsia, a qual estava no DrConsulta.
No dia seguinte, solicitamos a lâmina, a qual demoraria 10 dias para chegar. Enquanto isso, tentamos marcar a #ressonancia , mas para isso também tem #filadeespera no SUS e não pode fazer no particular por causa da #burocracia do hospital. 🙄
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Quando finalmente pegamos a lâmina para marcar a quimioterapia no hospital, disseram que iam ficar só com o laudo da biópsia (voltamos com a lâmina) e pegaram nossos telefones para falar se ele vai ou não ser atendido naquele hospital… 😭
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Ou seja, a pessoa já tem o #diagnosticodecancer faz todos os exames, é examinado novamente pelo médico e não sabe se será atendido??? 😳
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Com o perdão da palavra… QUE PO🤬A DE SUS É ESSA??? 😠
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Deus que me perdoe, mas é por isso que muitas pessoas morrem sem tratamento… O pior é que nem dá pra ir no particular, pois a cirurgia e tratamentos passam dos R$ 100 mil e a pessoa que trabalhou a vida inteira e AINDA TRABALHA, não pode ser atendida quando precisa… 🤨
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Enfim, estou postando esse desabafo, pois tanto meu pai quanto eu, somos muito educados e não sabemos fazer barraco, como muitos dizem para fazer… Não achamos que seja esse o caminho, pois quando se trata as pessoas com educação, conseguimos muito mais em troca… No entanto, estamos um pouco confusos com toda essa situação, pois não achamos que seja “normal” uma pessoa com diagnóstico de câncer demorar tanto para ser atendida desse jeito… Por isso, pedimos ajuda com informações do que podemos fazer, sem que seja necessário brigar, discutir ou arrumar ainda mais confusão! Toda ajuda é muito bem-vinda! E se puderem compartilhar até chegar em quem pode ajudar, agradecemos imensamente!!! Rezem por nós e que Deus esteja sempre a frente dos nossos caminhos! 🙏🙌 Link post completo no Instagram

Depois desse post, recebemos mensagens de várias pessoas que se ofereceram para ajudar e deram informações para irmos a vários lugares, mas como ele já tinha dado entrada no Hospital Heliópolis, não poderíamos mudar muita coisa. Até tentamos a ajuda de um parente nosso, mas antes que ele retornasse com uma possível ajuda, o Hospital Heliópolis entrou em contato.

A consulta com o oncologista Dr. José Carlos M. Ferreira foi agendada para o dia 12 de junho de 2019. Nesse dia, quem acompanhou meu pai foi minha mãe… o que foi bom, pois eu já não tinha mais estrutura psicológica para enfrentar a recepção daquele hospital. Graças a Deus, minha mãe é uma pessoa tranquila, forte e comunicativa. Ela é mais firme do que meu pai e eu juntos.

Meus pais chegaram na consulta com o Dr. José Carlos e explicaram toda a situação para ele, mostraram exames e tudo mais. Ele examinou meu pai e fez o caminhamento para a radioterapia e a quimioterapia, mas disse que teria que aguardar até que surgisse a vaga para iniciar o tratamento. Meu pai ficou preocupado novamente, mas até que dessa vez não demorou tanto para chamá-lo.

No dia 19 de julho de 2019, o atendente Caio da sessão de Radioterapia ligou para informar que no dia 29 de julho de 2019 às 14h iniciaria a radioterapia e que nesse mesmo dia ele deveria marcar a quimioterapia também. Ao todo seriam 28 sessões de radioterapia (seguidas) e 10 de quimioterapia, divididas em 5 dias seguidos no início e 5 dias seguidos no final.

Início do tratamento – Radioterapia e Quimioterapia

No dia 29 de julho de 2019, meu pai iniciou as sessões de radioterapia. Para quem não sabe, esse tratamento consiste em receber luzes de radiação no local demarcado com um “X” na pele, com o intuito de ir “queimando” o tumor internamente. Já a quimioterapia é um medicamento recebido pela veia (ou oral em alguns casos) para destruir as células cancerígenas… e as boas também… 😦

Importante frisar: o Dr. José Carlos explicou para meus pais que o tratamento seria leve e que meu pai não precisaria de acompanhante, pois a dose dele deveria ser leve e ele não teria tantos efeitos colaterais. Infelizmente não foi bem isso o que aconteceu…

Na primeira semana de radioterapia até que foi bem tranquilo. Meu pai foi dirigindo e minha mãe o acompanhou. Até então não houve nenhuma queixa de dores, além das quais ele já sentia antes de iniciar o tratamento. A parte boa da radioterapia foram as pessoas que conhecemos por lá, que também estavam realizando o tratamento: Reginalda, Neiri e seu filho Alex, Dona Luiza e sua filha Vaneide, Dona Vera e seu vizinho que a acompanhava, bem como as outras pessoas que também estavam tratando e que não sabíamos o nome.

Na semana seguinte, do dia 5 ao dia 9 de Agosto (meu pai odiava esse mês), meu pai fez as primeiras 5 sessões de quimioterapia pela manhã e continuou fazendo as sessões de radioterapia a tarde. Como o Hospital Heliópolis fica próximo à casa do meu cunhado Thierry, meus pais passaram a semana inteira por lá. Fiquei de sobreaviso caso precisassem de ajuda, pois até então meu pai ainda estava forte e dirigia normalmente.

Apesar de estarmos apreensivos com o tratamento, a primeira semana de quimioterapia junto com a radioterapia parecia estar indo muito bem! Minha mãe acompanhou meu pai só no primeiro dia, pois como não podia ficar na sala de quimioterapia e as sessões eram muito demoradas, ela teria que ficar esperando mais de 3 horas na recepção, além do horário da radioterapia que era a tarde.

Enquanto tomava a quimioterapia, Papito aproveitava para observar as pessoas e refletir sobre a vida. Vez ou outra ele mandava uma selfie pra gente, pra mostrar que estava tudo bem. Nessa primeira semana de quimio e radio, o Hospital Heliópolis ainda servia almoço para os pacientes, mas foi apenas nessa primeira semana. Muitos pacientes, já debilitados pela quimioterapia, jogavam a maior parte da comida no lixo, causando desperdício. Menos Papito, que comia tudo muito orgulhoso de si, como uma criança que a mãe obriga a limpar o prato! rsrs

Papito não entendia o porquê das pessoas não comerem toda a comida, mas alguns dias depois isso ficou muito claro para ele.

Papito Quimio

Efeitos colaterais da primeira sessão de quimioterapia…

No dia 9 de agosto de 2019, Papito voltou para a casa do Thierry, ao encontro de minha mãe, super orgulhoso e aliviado por ter conseguido fazer as 5 primeiras sessões de quimio junto com a radio e não ter tido nenhum sintoma ruim. No entanto, no sábado pela manhã voltando para Guarulhos, eles pegaram um calor muito forte no trânsito e meu pai já chegou em casa com um princípio de diarréia.

No domingo, 11 de agosto de 2019, era Dia dos Pais! Apesar da fraqueza que sentia por causa da diarréia, Papito ainda conseguia sorrir e começou o dia animado! Conseguiu almoçar normalmente e recebeu visitas (Bruno, Isabelli, Paula, Tia Aninha e Tia Nenê). Ao anoitecer, ele foi ficando cada vez mais amuado e cansado, mal via a hora de poder deitar e descansar.

Depois que as visitas foram embora, inclusive eu, Papito passou muito mal e vomitou bastante. Teve até dor no peito, o que deixou minha mãe muito preocupada a ponto de querer me chamar para levá-lo ao pronto-socorro, mas ele não deixou. Fiquei sabendo disso no dia seguinte, quando minha mãe me interfonou dizendo que meu pai não tinha condições de ir sozinho para a radioterapia e que teríamos que levá-lo.

Partimos para o Hospital Heliópolis um pouco antes do horário da radioterapia para ver se conseguíamos passá-lo com um médico. Chegando lá, ele foi encaminhado para a enfermaria. A enfermeira Socorro mediu a pressão dele e estava normal, graças a Deus o susto passou. Saindo da enfermaria, ele fez a sessão de radioterapia e voltamos para casa.

Apesar das recomendações para ele tomar bastante água de coco e procurar se alimentar bem, meu pai já começou a não querer comer direito, pois sentia muito enjoo e ainda vomitava bastante. Quando não era o vômito, era diarréia… ou os dois ao mesmo tempo. Nessa época ele estava tomando vários remédios receitados pelo Dr. José Carlos: Vonau para vômito, Imosec para diarréia, Plasil para enjoo, Paracetamol para dor… e por aí vai.

Mesmo com tantos remédios, os sintomas não passavam. Quando o vômito finalmente sessou, começaram as cólicas abdominais muito fortes, que fizeram com que voltássemos a procurar o médico.

No dia 14 de agosto de 2019, antes da radioterapia, meu pai passou com o Dr. Paulo Wan Chi Tsai, para falar sobre todos os sintomas que estava sentindo e o Dr. disse que eram reações normais da quimioterapia. Falou inclusive que a radioterapia também poderia causar efeitos colaterais, como queimação no local e sensações como as de uma hemorroida. Por isso, ele receitou mais alguns remédios, mas esses não surtiram muito efeito.

As sessões de radioterapia do dia 12 ao dia 16 de agosto de 2019 seguiram em meio a vômitos, diarréia e dores, mas pelo menos não teve a quimioterapia para complicar ainda mais.

Na semana seguinte, do dia 19 ao dia 23 de agosto de 2019, fomos apenas meu pai e eu para o Hospital Heliópolis. Ele já não estava mais vomitando com tanta frequência, mas ainda estava com um pouco de diarréia e com cólicas abdominais fortíssimas. Por isso, no dia 21 de agosto, meu pai passou com o Dr. Vitor M. Ferigato, para falar sobre essa dor abdominal que ele dizia parecer hérnia.

Dr. Vitor examinou meu pai na maca e disse que haviam hérnias sim, mas que não era para forçar ou tentar colocá-las para dentro. Nesse dia, ele passou Morfina para diminuir a dor e estancar a diarréia. Pegamos as Morfinas no próprio hospital, mas foi só ele tomar para voltarem todos os sintomas novamente, vômitos, diarréia e dores… Ou seja, meu pai não se deu bem com a Morfina!

Nessa mesma semana, no dia 20 de agosto de 2019, meu pai fez um hemograma no próprio hospital para levar na semana seguinte, quando iniciariam as últimas 5 sessões de quimioterapia. Pegamos o resultado no dia 21 de agosto e mostramos para o Dr. Vitor. Ele disse que estava tudo normal, então não tínhamos muito o que questionar.

Na quinta-feira, 22 de agosto de 2019, uma cena muito triste me marcou e ela vem na minha cabeça toda vez que passo pelo corredor do apartamento dos meus pais. Chegando da sessão de radioterapia, meu pai demorou para descer do carro. Achei estranho, mas fiquei esperando para ver se ele queria vomitar ali mesmo na garagem. Ele se recuperou e conseguimos subir pelo elevador. Vim na frente para abrir a porta e ele veio bem devagar arrastando a mão direita pela parede… Quando estava quase chegando na porta do apartamento, veio um esguicho muito forte de vômito e ele não conseguiu segurar até o banheiro… Vomitou tudo no corredor…

Ele ainda conseguiu ir para o banheiro e continuou vomitando… Depois que parou de vomitar, tudo foi limpo e ele foi descansar. Não conseguia comer mais nada além de beber apenas água de coco e o suplemento que a nutricionista passou.

No dia seguinte, depois da radioterapia, ele passou novamente com o Dr. Vitor e nós contamos para ele tudo o que tinha acontecido. Ele falou para o meu pai ir até a enfermaria e pediu para a enfermeira Socorro aplicar glicose e complexo B12 pra ele na veia. Ele ficou tomando esse soro até às 17h e pouco… Foi chegando a hora do pessoal ir embora e o soro estava quase acabando. Socorro mediu a glicemia do meu pai e viu que havia subido muito. Ela achou melhor interromper o soro e tirou o acesso.

Voltamos para casa e passamos o final de semana nos preparando para as últimas 5 sessões de quimioterapia… Não tínhamos nem ideia que essa seria a última semana de vida do meu pai… 😦

As últimas 5 sessões de quimioterapia…

Na semana do dia 26 a 30 de agosto de 2019, fomos meu pai, minha mãe e eu para a casa do Thierry, pois meu pai faria novamente as sessões de quimioterapia de manhã e as radioterapias a tarde e a casa dele fica há 10 minutos do Hospital Heliópolis. Sinceramente, achávamos que não deixariam meu pai fazer essas sessões de quimioterapia, pois ele estava muito definhado e mal conseguia manter-se de pé.

Na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, levei meu pai para a quimioterapia às 8h. Quando chegamos, uma das atendentes da sessão de quimioterapia pegou o resultado do hemograma que meu pai fez no dia 20 de agosto e levou para dentro da sala, assim como fez com o de todos os outros pacientes que aguardavam por lá.

Nesse momento, minha mãe e eu pensávamos que alguém veria o estado dele, mas voltaram com o resultado conferido e chamaram meu pai assim mesmo para iniciar as sessões. Nesse dia, minha mãe e eu ficamos pelo hospital aguardando o término da quimio para depois encaminhá-lo para a radio.

Não serviam mais almoço nessa época, por conta do desperdício, apenas um kit lanche, que meu pai nem conseguiu comer. Três horas depois do início da quimio, meu pai foi liberado e nós o levamos para fazer a radioterapia. Ficamos aguardando um pouco, pois chegamos antes do horário dele e as pessoas que o conheciam e chegaram depois, foram ficando espantadas ao vê-lo naquele estado.

Toda aquela força, alegria e bom humor, característicos do meu pai, foram transformados em dor, tristeza e desânimo. Quem olhava para ele percebia que ele já tinha entregado os pontos e que não tinha mais de onde tirar forças para lutar contra os efeitos colaterais da quimio e da radio.

Nos dias seguintes, aconteceu da mesma forma, mas eu não ficava mais com minha mãe, pois voltava para a casa do Thierry para trabalhar e também porque não deixavam mais ficar estacionada lá dentro do hospital. Minha mãe o acompanhou nos últimos dias de quimioterapia e eu apenas levava e buscava.

Nos últimos dois dias de quimio, 29 e 30 de agosto, houve uma mudança nos horários e ele fez a radioterapia antes da quimio. Não sabemos explicar o motivo dessa troca, mas parece que houve uma confusão de horários e acabaram jogando meu pai para o turno da tarde.

Na sexta-feira, 30 de agosto de 2019, busquei meus pais no hospital e quando chegamos em casa, ele teve uma diarréia incontrolável… Sujou todo o banheiro e minha mãe teve que colocar fralda nele para dormir. Meus pais dormiam no andar de cima, porque os chuveiros ficavam nos banheiros de cima e eu dormia no sofá da sala.

No sábado de manhã, 31 de agosto de 2019, acordei com a minha mãe me chamando às pressas… Subi correndo e quando cheguei no quarto, ela estava tetando segurá-lo de pé, mas não tinha mais forças… Corri para pegar a cadeira que estava no banheiro e o colocamos sentado novamente. A cama estava suja e a fralda cheia… Não sabíamos de onde ele estava tirando tudo aquilo, já que não estava mais conseguindo comer nada…

Depois de muito insistir com ele, levamos meu pai para o banheiro e minha mãe deu banho nele. Ajudei a secá-lo, colocamos a fralda e a roupa e voltamos com ele para a cama. Não tínhamos mais como descer com ele porque se ele perdia as forças nas pernas, minha mãe e eu não conseguímos levantá-lo.

Ele ficou na cama e reclamava de dor na barriga e nas costelas… Demos os remédios dele e também a água de coco, pois era a única coisa que ele conseguia tomar. Aproveitei que estava tudo aparentemente calmo e fui até o sacolão comprar mais algumas coisas que precisaríamos para fazer o almoço.

Quando voltei, minha mãe disse que ele estava me chamando… Ao subir as escadas, vi que ele já estava tentando ir sozinho para o banheiro. Fui até o encontro dele para ajudá-lo, mas ele foi perdendo as forças nas pernas e eu não conseguia mais mantê-lo de pé. Chamei minha mãe e ele foi descendo ao chão. Tivemos que deixá-lo deitado lá até conseguir ajuda. Colocamos uma toalha debaixo dele e um travesseiro.

Liguei para o 192 para chamar a ambulância, mas todas as unidades estavam ocupadas.

Depois, liguei para meu namorado Bruno e informei da situação. Ele estava em Guarulhos e estava à caminho de lá. Como ele foi de moto, conseguiu chegar em 50 minutos. Cheguei a ligar novamente para o 192 para saber se a ambulância estava à caminho, mas eles disseram que ainda não havia nenhuma unidade disponível para o resgate.

Bruno chegou e subiu para ajudar a descer com ele. Ao chegar no andar de cima, deu de cara com meu pai no chão e, como tem conhecimentos de primeiros-socorros, orientou que meu pai o abraçasse nos ombros para que Bruno conseguisse levantá-lo do chão. A imagem do meu pai esticando os bracinhos para abraçá-lo, ficou na memória de Bruno…

Bruno desceu as escadas com meu pai nos braços e conseguiu levá-lo até o carro para levarmos ao pronto-socorro. Fechamos a casa e saímos todos em direção ao Hospital Heliópolis.

Pronto-socorro do Hospital Heliópolis… De pronto não tem nada, muito menos socorro!

Chegamos no hospital por volta das 14h. Fomos até o pronto-socorro e o segurança falou para colocá-lo num canto na cadeira de rodas com um acompanhante. Minha mãe ficou com ele e eu fui fazer a ficha, enquanto Bruno foi achar um local para estacionar.

Fiz a ficha do meu pai, a senha dele era 069 e quando fui falar com o segurança novamente, ele disse que tínhamos que aguardar, pois havia várias pessoas na frente. Nesse momento, meu pai estava com a respiração ofegante e quase escorregando da cadeira.

Insisti com o segurança, pois tratava-se de uma emergência e de um paciente de oncologia, mas ele disse que não poderia fazer nada. Apenas disse para eu ir até a enfermaria para tentar passá-lo na frente.

Depois de rodar igual a uma barata tonta sem ajuda de ninguém, tive que entrar com meu pai na sala da médica que estava atendendo no plantão (Dr. Andressa ou Andreza)… só aí ela viu o estado em que meu pai estava e o encaminhou para uma outra sala para fazer a triagem.

Uma enfermeira chamada Cícera entrou na sala e tivemos que colocá-lo na maca, nós três! Não tinha nenhum homem para ajudar! Absurdo!

Dra. Andressa começou o atendimento, enquanto a enfermeira Cícera procurava a veia boa para fazer o acesso. A pressão dele estava muito baixa e ele estava com falta de ar. Cícera colocou a máscara de oxigênio, retirou uma seringa de sangue para coletar alguns exames e colocou o soro. Nesse momento meu pai se acalmou um pouco e a pressão começou a voltar ao normal.

Minha mãe e eu ficamos assustadas com a quantidade de sangue retirado para realizar o exame. Cícera encheu uma seringa grossa de sangue, para colocar em apenas três tubinhos… Foi um tantão de sangue do meu pai para o lixo… Bom, mas isso não vem ao caso…

Cabe apenas mais uma observação relevante: entre um assunto e outro, Cícera comentou que nesse dia havia entrado uma mulher no PS com H1N1, mas ninguém sabia o que ela tinha antes de ser atendida, diagnosticada e finalmente levada para o isolamento.

Depois de examinar meu pai, Dra. Andressa disse que os exames ficariam prontos entre 2h ou 2h30 e que se ela estivesse lá ainda, ela mesma veria o resultado. Do contrário seria encaminhado para a equipe de cirurgia. Em nenhum momento nos foi falado que éramos nós quem deveria buscar o exame.

Em seguida, meu pai foi encaminhado para uma sala de observação, junto com outros pacientes, onde poderia ficar apenas um acompanhante. Fiquei ainda um tempo com eles, mas como não tínhamos almoçado ainda, fui almoçar ali por perto e minha mãe ficou com meu pai. Depois eu voltei para que minha mãe pudesse ir almoçar e eu fiquei com meu pai.

Quando cheguei na sala de observação, o soro do meu pai já tinha acabado e a enfermeira Cícera ainda não tinha colocado a medicação na veia dele. Dra. Andressa havia prescrito uma medicação que continha praticamente todos os remédios que ele estava tomando em casa. Porém, ia ser injetado tudo na veia.

Nesse momento, meu pai estava se queixando de dor e sua respiração ficando cada vez mais ofegante novamente. Chamei a enfermeira Cícera várias vezes, mas ela dizia que estava preparando a medicação. Quando ela finalmente chegou, disse que estava aguardando a Morfina chegar, por isso que tinha demorado tanto…

Meu pai ficou com uma expectativa muito grande do medicamento fazer com que a dor que ele estava sentindo parasse logo, mas além de demorar muito, parece que ele começou a piorar… Desconfiamos mais uma vez da incompatibilidade da Morfina com o meu pai, pois ao invés do medicamento resolver o problema, só piorou ainda mais…

Nisso já tinha passado mais de 2 horas e ninguém veio falar nada sobre o exame do meu pai. Minha mãe voltou do almoço e eu desci para encontrar o Bruno que teve que ficar esperando do lado de fora. Fomos até a casa do Thierry pegar algumas blusas, pois o tempo havia mudado de repente. Foi um sábado muito quente e turbulento que terminou de maneira fria e tenebrosa.

Bruno e eu voltamos para o hospital por volta das 20h e quando me dirigia para a sala de observação, encontrei minha mãe no corredor voltando com o resultado do exame. Ela me falou que perguntou para o enfermeiro sobre o exame que ele tinha feito quando deu entrada lá e o enfermeiro disse que ela é que tinha que ir buscar… A enfermeira Cícera e a Dra. Andressa não disseram isso para nós quando entramos no PS e elas já tinham saído quando minha mãe foi questionar o enfermeiro que ficou no lugar dela.

Depois que minha mãe pegou o resultado do exame, ainda teve que ficar de plantão em frente à sala do médico para mostrar o exame para ele. Isso demorou quase 1 hora e, enquanto minha mãe aguardava o médico, fiquei com meu pai na sala de observação.

Fiquei chocada ao perceber que o estado de saúde dele naquele momento era bem pior de quando ele entrou… Ele não conseguia respirar direito, queria vomitar e não conseguia, estava muito inquieto na maca, com muita dor, abdômen inchado e duro, e estava muito preocupado com a medicação que já não fazia mais efeito algum. Ele tentou vomitar num saquinho, mas saiu um líquido muito escuro…

Foi quando entrou uma enfermeira grávida com uma prancheta na mão… Possivelmente ela iria verificar a situação dos pacientes que estavam naquela sala, mas quando ela viu o estado do meu pai, veio direto em minha direção e começou a me fazer várias perguntas.

Uma das perguntas que essa enfermeira fez foi: “Há quanto tempo ele está com essa respiração ofegante?”

Eu disse: “Desde quando ele entrou aqui no hospital!”

Ela perguntou mais algumas coisas e pediu a ficha dele, a qual estava na caixinha do médico, aguardando a chegada dele. Tive que buscar a ficha e o exame e ela levou para uma outra sala, provavelmente onde estava a tal equipe de cirurgia que a outra doutora havia mencionado.

De repente, uma equipe com uns cinco médicos entrou na sala e já foram verificando o estado de saúde do meu pai. Levaram-no para uma outra sala onde não nos deixaram entrar.

Escutei um gemido bem alto, foi quando descobri que haviam introduzido uma sonda nele para retirar o líquido que estava obstruindo sua respiração. Quem nos contou isso foi o Dr. Bernardo Pompeu, que apareceu do nada no plantão e veio conversar comigo e com minha mãe.

Dr. Bernardo disse que tinha visto o exame dele e que os leucócitos estavam em 300… até então eu não tinha entendido que esse número era muito baixo… Depois que eu fui procurar e soube que o normal é estar entre 4 a 11 MIL! Ou seja, meu pai já não tinha mais defesa alguma e estava morrendo… mas naquele momento, minha mãe e eu não estávamos entendendo a gravidade da situação. Ele falou ainda que o caso era grave, mas não era de cirurgia. Disse que meu pai seria encaminhado para a unidade de emergência para ficar isolado e que, assim que aparecesse uma vaga na UTI, ele seria encaminhado para lá.

Nesse momento, não pudemos mais vê-lo e também não poderíamos mais ficar no hospital. Falaram apenas para retornar no dia seguinte, às 15h para a visita e também que teríamos que ir até a sala de internação para dar entrada nele lá.

Outro médico, Dr. Wagner se não me engano, estava com a equipe do Dr. Bernardo e também veio conversar conosco. Ele perguntou se alguém já tinha explicado o caso dele e nós dissemos que sabíamos que o caso era grave, mas não sabíamos o que estava acontecendo. Dr. Wagner disse que o caso dele era grave e ficou gravíssimo, que ele teria que ser entubado para conseguir respirar e para que a sonda que colocaram nele retirou uma grande muito grande de líquido…

Minha mãe e eu ficamos preocupadas, mas não sabíamos mais o que fazer… Apenas seguimos as orientações dos médicos de ir até a internação para dar entrada e depois ir para casa, pensando que voltaríamos no dia seguinte…

Quando estávamos fazendo a internação do meu pai, a atendente pediu a ficha com a qual ele deu entrada no pronto-socorro. Ela tinha ficado junto dele na maca, por isso tive que ir até onde ele estava para buscar. Bati na porta e quando o enfermeiro abriu, consegui ver meu pai de longe, que aparentemente estava normal, pois os batimentos estavam estáveis e ele não estava mais com a máscara de oxigênio.

Pedi a ficha dele para o enfermeiro e este questionou: “Precisa mesmo da ficha?”

Eu respondi: “É a moça da internação que está pedindo…”

Achei aquele questionamento dele um pouco estranho, mas não quis prolongar ainda mais a situação.

Fizemos a internação, vimos os médicos passando com ele para a Unidade de Emergência e essa foi a última vez que vi meu pai com vida… se é que ele ainda estava com vida à essa altura, pois desconfio que no momento em que enfiaram a sonda nele, algo muito grave aconteceu…

Depois de tudo isso, minha mãe, Bruno e eu voltamos para a casa do Thierry e tentamos descansar. Comemos alguma coisa e fomos dormir por volta de 1 hora da manhã. Quando finalmente peguei no sono, meu celular tocou, às 3 da manhã… Era a atendente da internação do Hospital Heliópolis dizendo:

“Aqui é do Hospital Heliópolis, é referente ao paciente Luiz Candido de Oliveira, você é o quê dele?”

Eu respondi: “Filha…”

Ela continuou: “Houve um problema com um documento dele e os médicos pediram para alguém da família vir até aqui.”

Nossa… Nem preciso dizer que quando ela falou isso eu já tinha pensado no pior, né? Minhas pernas começaram a tremer, veio um nó na garganta, uma angústia horrível misturada com uma sensação de impotência… Várias sensações horríveis e misturadas, impossíveis de ser descritas por aqui…

Acordei o Bruno e a minha mãe, que também ficaram tão nervosos quanto eu… Falei para minha mãe ficar na casa, pois eu iria com o Bruno até o hospital saber o que houve, pois por mais que a gente já desconfiasse, não conseguíamos acreditar que era verdade. No fundo sempre há uma esperança… Falei para o Bruno ir dirigindo, pois minhas pernas tremiam, mas depois descobri que as pernas dele tremiam mais ainda!

Chegamos no hospital e fui direto na internação falar com a atendente que havia me ligado… Ela ligou para a Dra. Priscila para avisar que eu havia chegado, já com uma cara que dizia tudo… Depois pediu para Bruno e eu aguardamos numa salinha ao lado que a Dra. Priscila viria falar conosco.

Quando a Dra. Priscila chegou, ela começou a falar e eu só conseguia ver a boca dela mexendo… não conseguia mais processar o que ela estava dizendo… até que ela disse: “Veio a óbito”… Nesse momento não caiu nem a ficha… foi logo um orelhão do tamanho do mundo que despencou em minha cabeça…

Bruno e eu ficamos sem palavras, sem reação, nem chorar a gente conseguiu, pois o choque foi muito grande! Só lembro dela ter falado que meu pai teve uma parada cardio respiratória à meia-noite e que eles conseguiram reverter… Depois ele teve outra parada, por volta das 2 horas da manhã e não conseguiram mais fazê-lo voltar… Perguntei a ela se eu poderia vê-lo e ela disse que sim. Disse então que ia até em casa para dar a notícia para minha mãe e buscá-la para que pudéssemos vê-lo juntas.

Bruno e eu voltamos chorando para a casa do Thierry e quando chegamos lá, abracei minha mãe e ela já sabia de tudo. Pelo tipo de notícia que me deram pelo telefone, ela disse que já imaginava o que tinha acontecido. Voltamos para o hospital e quando chegamos lá, demorou ainda um tempo até que pudéssemos ver meu pai.

A demora foi para a preparação da declaração, bem como a entrega dos exames que haviam ficado com eles. A única coisa que não nos devolveram foi o tal do exame que acusou 300 leucócitos que o Dr. Bernardo falou… mas na hora não estávamos com cabeça para cobrar esse tipo de coisa… Só queríamos vê-lo…

Enquanto minha mãe assinava a declaração feita pelo médico, liguei para minha irmã Elaine, que estava no Canadá… Dar uma notícia dessa para uma pessoa querida e que está tão longe, é uma das piores coisas que pode existir… Choramos muito pelo telefone, ela ficou inconformada e disse que não sabia o que fazer, pois talvez não daria tempo de chegar para o velório… Ficamos de retornar a ligação depois, pois estavam nos chamando para ver meu pai.

Descemos até o necrotério (lugar que minha mãe e eu tínhamos avistado no dia em que meu pai fez a sexta sessão de quimioterapia) e vimos meu pai enrolado no lençol do hospital, com as mãos amarradas sobre o peito, esparadrapos segurando o maxilar e o corpo ainda quente… Foi a pior sensação da minha vida!

A vontade que minha mãe e eu tivemos foi a de tirá-lo de lá, fazê-lo acordar, falar com ele, mandar ele levantar, qualquer coisa do tipo! O corpinho magro e sofrido dele ainda estava quente… Uma sensação muito ruim… E essa imagem não sai da minha cabeça…

Desde então, acordo todos os dias com essa lembrança na cabeça… Sei que nada vai trazê-lo de volta e que onde quer que ele esteja, ele não quer que a gente sofra ou fiquemos tristes… mas é muito difícil de controlar!

Hoje mesmo, 18 de setembro de 2019, seria o dia do retorno dele com o Dr. José Carlos, após as sessões de quimioterapia e radioterapia. Na última semana em que meu pai fez as sessões de quimio, minha mãe insistiu várias vezes com meu pai para eles conversarem com o Dr. José Carlos, para que ele visse o estado que meu pai ficou… Como disse antes, o Dr. José Carlos falou para eles que seria um tratamento leve e simples, mas na verdade foi justamente o contrário.

Apesar da insistência da minha mãe, meu pai, mesmo fraquinho e debilitado, não queria ver o médico de jeito nenhum… Não tínhamos como arrastá-lo a força para ele ver o médico, mas se soubéssemos que esse seria o fim, com certeza o faríamos… Meu pai ainda viu o Dr. José Carlos chegando numa quinta-feira (sendo que o dia dele estar lá era de quarta), mas não quis ir falar com o médico… Meu pai apenas comentou com minha mãe que tinha visto Dr. José Carlos, o que a deixou ainda mais brava, pois era para ele ter visto o estado em que meu pai ficou… Enfim, agora não adianta mais!

Quem matou meu pai?

Quando esse tipo de coisa acontece, tentamos achar culpados, procuramos respostas, pensamos no que poderia ter sido feito ou não feito… Chegamos a pensar que seria melhor ter deixado meu pai achar que tinha mesmo hemorroida, para tê-lo por mais tempo pertinho da gente, mas isso seria muito egoísmo e negligência não só da nossa parte, como da dele também.

Colocamos a culpa na teimosia dele, na demora do SUS, na negligência do PS, no fato do melhor amigo dele ter morrido no mesmo hospital há 10 anos atrás, no falecimento do irmão mais velho dele em maio, devido à um câncer no fígado que não teve nem chance de tratamento devido à idade avançada…

Tio Salvador, irmão mais velho e padrinho do meu pai, sofreu muito na vida, mas também vivia escondendo as dores, tratando-as como se fossem doenças leves que se resolvem com um simples “Epocler”. No ano passado, em março de 2018, ele foi levado ao hospital às pressas pois estava com uma infecção gravíssima entre o pâncreas e o fígado.

O diagnóstico era câncer, mas no caso dele, apesar de ser ainda mais grave, ele ainda conseguiu viver por mais de um ano, pois não poderia tomar a quimioterapia, assim como aconteceu com meu pai… O médico do Tio Salvador havia dado 6 meses de vida para ele, mas por ser muito forte e ter muita vontade de viver, ele viveu mais que o dobro do tempo estipulado pelos médicos.

Salvador Candido de Oliveira, o filho mais velho de Ana Amélia de Oliveira, faleceu em 22 de maio de 2019. Nesse dia meu pai já estava abatido com o estado de saúde de seu padrinho, mas ficou ainda mais com a morte dele.

Por isso, é tão importante cuidar não só do físico, mas principalmente do psicológico e do espiritual. Apesar de ser uma pessoa muito boa, querida e divertida, por dentro meu pai escondia uma tristeza muito profunda, além de rancores, preocupações e falta de perspectiva de vida…

Sobre a questão espiritual, meu pai era considerado um católico não praticante. Na infância ele chegou a ser coroinha de igreja. Frequentava a missa vez ou outra, mas nunca foi de se apegar a nenhuma religião fervorosamente. Apenas acreditava em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, a mãe de Jesus.

Ultimamente até mesmo suas orações, por mais frequentes que fossem, eram feitas com um pouco de dúvida e descrença… Sentia um pouco de confusão na forma em que ele se expressava espiritualmente, mas nunca o questionei por isso. Apenas achava que ele tinha que ser mais firme em suas decisões e cuidar mais da saúde…

Enfim, acho que registrei o principal sobre a saga de morte de meu pai, pois precisava desabafar de alguma forma. Essas lembranças ruins estavam me sufocando!

Não falarei sobre funerária, velório e afins, pois não é esse o intuito do post, mas para quem tiver curiosidade de saber, Graças a Deus, não tive problemas nenhum com essa parte!

Apenas para finalizar esse registro:

Luiz Candido de Oliveira, filho caçula de Ana Amélia de Oliveira, faleceu no dia 1º de setembro de 2019. Pelo menos não foi no mês de agosto, o qual ele tanto detestava, mas sim no mês em que ele completaria 65 anos (em 30 de setembro) e o Tio Salvador completaria 85 anos (em 29 de setembro).

Descanse em paz querido pai, Papito, Luizinho, Tio Luiz, Luba… Junto do querido Tio Salvador (Dodô), da Vó Ana, do Tio Zico, Tio Leu, Tia Maria e todos os anjos e santos do céu!

Deus precisou de um anjo no céu e o chamou para ajudá-lo!

Deus ajude que essa dor se transforme logo em apenas boas lembranças!

Te amo pra sempre meu querido Papito!

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Luiz Candido de Oliveira 30/09/1954 – 01/09/2019

 

 

12 comentários em “Quem matou meu Pai?

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  1. Meu Deus… que triste ler esse post, e relembrar tudo oque passamos com uma cunhada muito querida Priscila (irmã mais velha do meu esposo). No próximo dia 28/10/2019, completará 2 anos de morte da Priscila… em decorrência de câncer. Foram quase 6 anos de tratamento, sendo seu primeiro diagnóstico Câncer de Mama… tendo metástase nos ossos. A Priscila tratou o câncer em seu convênio médico , que na verdade acabamos de ver… que sendo pelo SUS ou Convênio, a negligência médica e suas equipes são as mesmas… hoje me pergunto, oque devemos fazer para que isso acabe?!. Pq sabemos que nos USA, existem tratamentos contra o câncer, e que não são tão judiados e que tem resultado… que os pacientes sobrevivem.
    Sinto muito por sua perda, peço que Deus dê forças a vc e sua família para suportar essa dor tão grande. E que ainda possamos ver aqui no Brasil um tratamento contra o câncer, menos agressivo e com resultado benéfico aos pacientes.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Marisa! Obrigada por seu comentário! Na verdade, eu acho que existem exceções, sabe? Conheço pessoas que tiveram um bom atendimento no convênio… só não posso dizer o mesmo do SUS, infelizmente! Mas o intuito do post, além de desabafar, também foi o de alertar as pessoas para essa doença tão cruel e para as opções de tratamento “únicas” que existem para ela… Como você mesma disse, “sabemos que nos USA, existem tratamentos contra o câncer e que não são tão judiados…” É exatamente isso, pra quê judiar tanto? Parece que a quimioterapia serve para matar ainda mais rápido a pessoa? Nessas horas que dou razão para o Marcelo Rezende, que pelo menos tentou um tratamento menos invasivo. Pena que o estado dele era muito avançado… Bom, mas que sirva de alerta o meu desabafo e, quem sabe, chegue aos responsáveis pelas informações desencontradas do SUS, não é mesmo? Beijão pra você e sua família!

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      1. Por nada… sim, examente… que com esse Post chegue a autoridades e direções do SUS… até mesmo pq não deixa de ser uma rede particular não é mesmo?!… pq pagamos por nossos impostos, e é um direito nosso como cidadão de bem.
        Muito Obrigada e fiquem com Deus.
        Vc e sua família estão em minhas orações diária. Um forte abraço.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Hospital

    Entra são
    e sai num caixão.
    Do camburão
    ao rabecão.

    Corte na mão:
    infecção.
    Leito no chão:
    multidão.

    Soro, injeção,
    rim, coração.
    Dor e tensão.
    Extrema unção.

    Saúde? Não.
    E o cidadão?
    Dorme no chão.

    Vive na solidão
    juntando tostão
    pra pagar impostos em vão.

    Elaine Thrash (texto velho, mas sempre atual)

    Curtido por 1 pessoa

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